O modelo atual de reajuste dos benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) tem provocado um problema crescente no sistema previdenciário brasileiro: a perda contínua do poder de compra dos aposentados e pensionistas que recebem valores acima do salário mínimo. Enquanto o piso nacional conta com uma política de valorização que garante aumentos reais acima da inflação, os demais benefícios são corrigidos apenas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), o que gera perdas acumuladas ao longo dos anos.
Esse fenômeno, conhecido como “achatamento das aposentadorias”, afeta milhões de brasileiros que contribuíram durante décadas para a Previdência Social e hoje veem sua renda se aproximar cada vez mais do valor mínimo pago pelo INSS.
Diferença nos reajustes amplia desigualdade previdenciária
Em 2026, os números evidenciam claramente essa distorção. Os benefícios previdenciários acima do salário mínimo foram reajustados em 3,9%, índice baseado exclusivamente na inflação medida pelo INPC. Já o salário mínimo recebeu um aumento de 6,79%, resultado da política que combina inflação com crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
Na prática, isso significa que quem recebe acima do mínimo perde poder de compra relativo a cada ano. Mesmo que o valor seja reajustado, ele não acompanha a valorização do piso nacional, criando uma diferença que se acumula ao longo do tempo e reduz o valor real das aposentadorias intermediárias.
Mais de 300 mil aposentados “encolheram” para o piso em 2024
O impacto desse modelo já é visível e mensurável. Somente em 2024, mais de 300 mil aposentados que recebiam benefícios acima do salário mínimo passaram a receber exatamente o piso previdenciário. Esse movimento ocorre de forma silenciosa, mas constante, à medida que os reajustes diferenciados corroem gradualmente o valor real das aposentadorias.
Especialistas alertam que essa tendência deve se repetir nos próximos anos caso não haja mudanças na legislação, ampliando o número de beneficiários concentrados no valor mínimo.
INSS paga mais de 40 milhões de benefícios
Atualmente, o INSS administra um dos maiores sistemas previdenciários do mundo, com mais de 40 milhões de benefícios ativos. Desse total:
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21,9 milhões correspondem a benefícios de um salário mínimo
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14,1 milhões são benefícios acima do piso nacional
Os dados revelam um cenário preocupante: mesmo entre aqueles que contribuíram por mais tempo ou com salários maiores, a renda tende a se aproximar do mínimo ao longo dos anos. Esse processo compromete diretamente a qualidade de vida da população idosa, especialmente diante do aumento dos custos com saúde, medicamentos, moradia e alimentação.
Qualidade de vida dos idosos está em risco
A perda de poder de compra não é apenas um problema contábil. Ela impacta diretamente o dia a dia dos aposentados e pensionistas. Com o avanço da idade, os gastos com saúde se tornam mais frequentes e mais caros, enquanto o orçamento mensal fica cada vez mais apertado.
Muitos idosos relatam dificuldades para manter despesas básicas, recorrer a planos de saúde ou até mesmo garantir uma alimentação adequada. O achatamento das aposentadorias, portanto, agrava a vulnerabilidade social de uma parcela significativa da população brasileira.
Sindnapi cobra mudanças na legislação
O Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi) acompanha de perto essa situação e defende que a solução passa, obrigatoriamente, por mudanças legislativas. Segundo a entidade, as regras atuais de reajuste são definidas pelo Congresso Nacional, o que torna o problema essencialmente político.
Para o presidente do sindicato, Milton Cavalo, a perda de poder de compra é resultado direto das decisões tomadas ao longo dos anos:
“O achatamento das aposentadorias é resultado de decisões políticas. Sem mudanças na lei, quem contribuiu a vida inteira continuará perdendo poder de compra.”
O Sindnapi também reforça a importância de eleger parlamentares comprometidos com a defesa dos aposentados, pensionistas e trabalhadores ativos, para que o tema ganhe prioridade no debate legislativo.
PL 1468/23 propõe reajuste extra para aposentados
Entre as propostas em discussão no Congresso Nacional, uma das que mais despertam atenção é o PL 1468/23. O projeto prevê a concessão de um reajuste adicional de 5% a cada cinco anos de aposentadoria, como forma de compensar as perdas acumuladas ao longo do tempo.
A proposta é vista por entidades representativas como um passo importante para garantir valorização real dos benefícios previdenciários, especialmente para quem recebe acima do salário mínimo. No entanto, o projeto ainda enfrenta resistência e depende de articulação política para avançar.
Tendência de achatamento deve continuar sem reformas
Sem mudanças estruturais nas regras de correção dos benefícios, a tendência é que o achatamento continue se intensificando. A cada ano, mais aposentados passam a receber o piso previdenciário, reduzindo a diferença entre quem contribuiu mais e quem contribuiu menos ao longo da vida laboral.
Esse cenário também levanta questionamentos sobre a justiça do sistema previdenciário e o estímulo à contribuição formal, já que muitos trabalhadores percebem que, no futuro, seus benefícios podem não refletir adequadamente o histórico de contribuições.
Debate sobre valorização das aposentadorias ganha urgência
Diante do envelhecimento da população brasileira e do aumento do número de beneficiários do INSS, o debate sobre a valorização das aposentadorias se torna cada vez mais urgente. Garantir que os benefícios mantenham seu poder de compra não é apenas uma questão econômica, mas também social e humanitária.
Enquanto não houver mudanças na legislação, milhões de aposentados e pensionistas continuarão enfrentando perdas reais ano após ano. O desafio agora é transformar o tema em prioridade no Congresso Nacional e avançar em políticas que assegurem dignidade e segurança financeira para quem construiu o país ao longo de décadas de trabalho.
Autor: Joel Sychocki/ CLIC NOTICIAS

